quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

"ERA UMA VEZ EU, VERÔNICA", A ORGIA CUBISTA Amin Stepple




Starlets, divas taxidermizadas, improvisadas dos BBBs, damas de conforto dos diretores do Projac podem borrar o rímel, à vontade: a melhor atriz do cinema brasileiro, hoje, é Hermila Guedes. Façam um teste rápido. Escolham, aleatoriamente, qualquer cena de "Era uma vez eu, Verônica",do competente cineasta Marcelo Gomes, e lá estará, com densidade rara, espantosamente rara, Hermila, a transmigrar-se (a alma também a arrastar o corpo, por areia e lençol) para a personagem-psiquiatra. "Mestre, qual é o sexo das almas?" (Mario Faustino). Entre o tormento e o prazer (como se alguma personagem de Bergman migrasse do frio para uma temporada nos trópicos). Os puristas de cinemateca talvez se irritem com a comparação, mas Hermila é a nossa Ana Magnani, despojada da teatralização original da atriz italiana. A rapeize das atuais sessões de arte talvez goste de saber que Hermila tem uma ou outra semelhante a atuar no  novo cinema romeno.  Mas Hermila tem qualidades intransferíveis. É também uma atriz de silêncios. E aqui o mérito é só dela. Um desafio para o espectador, que, então, construa, no silêncio, a sua própria narrativa, interagindo ou não com a personagem.
"Era uma vez eu, Verônica" revela a maturidade do cinema produzido em Pernambuco. A maturidade da ousadia, marca indelével e histórica da  cinematografia pernambucana. Qual seria a sinopse imperfeita? Jovem médica, psiquiatra recém-formada, trabalha no SUS e se depara com todas as doenças mentais originárias do nosso acalentado abismo social;  tem um desvelo obsessivo pelo pai aposentado e doente (Electra dissimulada?); e busca  no sexo, a dois ou surubático, a descompressão do sufoco cotidiano (linha reichiana?). Ela própria, e a angústia nunca vem sozinha, também é paciente, de si mesma. Se escuta em off o fluxo da (in)consciência agônica de Verônica. Herança de um velho recurso literário (orquídeas migratórias dos jardins psicanalíticos vienenses do início do século XX),  a incomodar os fâmulos adoradores do claustro audiovisual, desertores há muito do "livro grande". Em parte, eles estão certos. Muralha de convicção que poderia ser desarticulada se o diretor, em sequências evolutivas ao off-agônico, desvelasse o solilóquio, o fluxo agônico também em on, viva voz, na própria boca de Verônica. Tal e qual Dom Quixote, que fala sozinho em vários momentos de sua coleante aventura. Falar (e rir) sozinho é um luxo para poucos. São borboletas defeituosas transmudadas, com ranhuras genéticas. Lamentavelmente, ali, a infantaria dos pascácios avançou e venceu um round. Perdemos, playboy.    
Verônica vive no tempo de hoje, na cidade em inesgotável decomposição urbana (a pátina dos cartões antipostais do Recife é sempre chocante, não obstante está se tornando um clichê do cinema pernambucano), imersa nos corredores congestionados e sofridos da saúde pública. Mas, curiosamente, a personagem talvez tenha mais proximidade psicológica e comportamental com médicos de outra geração, mais precisamente a dos anos 70, e não com a atual de doutores (mercantilizados desde os cursinhos preparatórios). Nos anos de governo militar, jovens médicos,  como Verônica, e, ao contrário desta, politizados pela cartilha da Esquerda, e, como ela, buscando o contraponto à repressão na liberação do corpo (agora, sim, cabeça feita pela função do orgasmo de Wilhelm Reich, entre outros) e na contracultura, poderiam ter servido de arquétipos mais realistas para a construção da persona de Verônica. Abstraída a ausência de contestação política, inexistente em Verônica, a angústia tem a mesma difusa matriz. Também é provável que Verônica, classe média baixa (tipo C?), venha a ser modelo para outra futura geração de médicos. Aí teremos que esperar a fornada de médicos que logo será formada pelas cotas raciais das universidades públicas. Não há descompasso em situar Verônica antes ou depois dos tempos atuais. Mas é quase improvável que ela hoje seja muitas, como foram nos opressivos 70, ou como poderá vir a ser lá adiante. Atemporal mas tão presente.
O SUS e os seus ambulatórios decadentes fazem parte da coleção nacional de campos de concentração. Existem outros, como os depósitos de adolescentes infratores (especializados em tortura oficial e decapitação televisionada), os presídios e cadeias infectadas,  as estalagens vergonhosas do trabalho escravo espalhado pelo Brasil e subvencionado com verbas públicas para fazendas, usinas e empresas. Ou os guetos dos viciados-zumbis do crack. Tudo sob o manto enrolation da apregoada mistificação da excelência gestão administrativa. Acostumada ao horror, a sociedade brasileira aceita hoje esses campos de concentração com um disfarçado sorriso de deboche autossatisfatório ou com muxoxos de indignação passiva. As cenas SUS de "Era uma vez eu, Verônica" são, quase sempre, de um realismo impressionante. O relato das doenças (psicossociais, o velho Reich comparece mais uma vez) obriga o espectador a entrar à força no ambulatório. A dor de cabeça, a depressão e o catatonia fazem parte da longa insônia da saúde pública no Brasil. Há cenas fortes, constrangedoras, como a cusparada do paciente ensandecido no rosto da médica. O take preferido  do plantão médico. Mais uma vez, Hermila mostra a garra que só grandes atrizes ostentam. Assimetricamente, e bem mais na frente, em dois belos planos, catárticos, a água lava o rosto da atriz. No primeiro, o chuveiro escorre a dor. No segundo, a explosão da água do mar rebate no rosto, um intenso prazer líquido.   
"Era uma vez eu, Verônica" é um filme de um diretor talentoso e ousado. É sobretudo um filme de atriz, expressiva, corajosa, única. Uma atriz de silêncios. Mas também de devastadoras emoções. A cena em que ela recebe o diagnóstico da doença do pai e exprime, quadro a quadro, toda a dor que sente já é antológica. O diretor e roteirista Marcelo Gomes impôs à personagem a palavra "desculpe" em plena sequência, quando a atriz revela todo o seu talento (ela, no caso,  se dirige ao colega médico, oculto na cena), absolutamente desnecessária. Sentimentos profundos prescindem de bons modos.  Mesmo a imprudência descabida do diretor não prejudica a sequência em que Hermila mostra a excepcional atriz que é. Os professores de cinema e de teatro deveriam exibi-la pelo menos uma vez por mês para os seus alunos.   
 As cenas de sexualidade, a dois ou de orgia (a psiquiatra gosta de praticar esse esporte, também conhecido como coletivo-apronto), representam mais do que meramente um componente dramatúrgico do filme. São também uma narrativa estética, de pulsão, compulsão e composição próprias. O diretor Marcelo Gomes escolheu a partilha cubista de Picasso (sem trocadilho, por favor). Corpos, ou peças de corpos, se entrelaçam, muitas vezes sem que o gênero seja facilmente definido, sob a luz impressionista do excelente diretor de fotografia Mauro Pinheiro (artesão de belos planos). O cubismo, liberto das formas rígidas, eleva a orgia a maleáveis prazeres despedaçados, bem ao gosto psicológico de Verônica. Mas, aqui, buscando, na fragmentação cubista, recortes eróticos, se acentuam as tetas totêmicas de Hermila Guedes e também os seus pelos pubianos (contrários à máquina zero, mas delineados no modelito "meia cabeleireira rebaixada"). O diretor Marcelo Gomes deve conhecer a sentença axiomática do escritor Henry Miller: "são os pentelhos que tornam a buceta misteriosa".  E, também aqui, Hermila Guedes, desprovida do medo de ser Verônica, não foge à sua inesquecível interpretação. É a mulher e a sua hora. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O SOM AO REDOR: A NÓIA NOSSA DE CADA DIA Amin Stepple




Não há violência. Há apenas uma sensação de insegurança. A frase, dita anos atrás por um secretário de Segurança,  tentava convencer a população que de havia menos crimes do que a sociedade constatava e muito mais um sentimento coletivo de medo, quase irracional. A mesma frase seria útil  também para a compreensão do filme "O som ao redor", de Kleber Mendonça Filho, cultuado aqui e alhures.   A violência se manifesta em poucas cenas (às vezes apenas presumidas). Mas o sentimento de insegurança onipresente e de que algo agressivo poderá acontecer a qualquer momento permeiam todo o filme.  Essa é essência do filme, muito bem explorada pelo cineasta, e que causa enorme e crescente desconforto ao espectador.
Na vida corriqueira de uma rua de classe média do Recife, "terrível e horrivelmente normal", está introjetada, sem qualquer relatório explicativo, a banalização do mal. Ou a sensação que ela causa. A expressão "banalização do mal", como se sabe, foi criada pela filósofa Hannah Arendt, na tentativa de definir os horrores cometidos pelos nazistas. Com Hitler, a Alemanha se tornara um estado totalitário, uma eficiente máquina burocrática de extermínio. Mas a mesma expressão seria suficiente para explicar o grau de violência acometido em um Estado que é democrático (ou se diz democrático), como o brasileiro? É claro que essa questão teórica não passa, nem de longe, pela cabeça dos múltiplos personagens de "O som ao redor".  Nesse microcosmo urbano a preocupação é somente comezinha.
A violência (ou a expectativa dela) -- latente, latejante, sub-reptícia --  ronda todos os personagens, aprisionados numa rede sem proteção, expostos ao perigo (ou ao sentimento que ele inspira). Mal comparando, assim como o fascismo está porosamente impregnado na vida de um conjunto residencial no antigo (1977) mas excelente: "Um dia muito especial", do diretor italiano Ettore Scola.  Se sente o fascismo, está ali. Mas se sente bem mais do que se vê.  Ou em outro filme, "A caçada humana" (1966), de Arthur Penn, onde a liturgia da violência cumpre um longo ritual, preparatório. Em "O som ao redor", tudo converge, à revelia do espectador e costurado por um roteiro que negaceia qualquer pista, para o desfecho, uma vindita. No filme de Kleber Mendonça, o Estado e as suas garras repressivas são o grande ausente. Nossas pequeninas e pulverizadas Somálias. E como inexiste vacância de poder, chega à rua o grupo que vende proteção privada, espécie de milícia, volante informal dos tempos modernos, sucedânea dos jagunços dos coronéis canavieiros. Os novos senhores da rua acentuam a tensão,  cobram taxas pelo serviço e, na cínica representação formal do jeitinho brasileiro, ainda passam recibo.  Somos uma nação original.
Na banalização da vida cotidiana, há certamente excesso de situações, descritas em planos longos e desprovidos de pressa, onde nada ou quase nada acontece (não há compromisso com relevância factual).  Mas eles são a intrigante matéria escura e indefinida que move o noiado universo da rua de classe média. Há quem sinta urticárias com essa inação. E aqui não se deve atribuir esse incômodo apenas ao olhar intoxicado pelo frenesi galopante do cinema americano. Há, nesse caso, também uma certa preguiça ou resistência do espectador em preencher esses tempos mortos e vazios com a sua própria narrativa da história. Em pleno reinado da exaltação à interatividade, é exigir demais coautoria?
Em quase todas as sequências, "O som ao redor" abdica de ser um filme tradicional (de narrativa previsível,   apoiada em um amplo repertório de diálogos). E passa para a fronteira do que se poderia se qualificar como "audiovisual", onde as cenas têm autonomia em relação às outras subsequentes, e prescindem de diálogos ou são extremamente econômicos (aqui, por favor, nada daquela ilação de ideograma eisensteiniano. É outra conversa). É possível que parte do impacto provocado venha daí, do "audiovisual", para o bem ou para o mal do filme. É só olhar a coleção de prêmios, as críticas fartas e generosas, a inclusão entre os melhores do ano e do mundo(deu no New York Times), mas também a contrafação dos que acham o filme sonolento, da rejeição dos que não curtem "O som ao redor". 
Numa das sequências surgem as ruínas de um velho cinema numa zona rural (à semelhança de outro filme pernambucano, "O Baixio das Bestas", de Claudio de Assis). Necrofilia cinematográfica à parte (bem mais apropriada à obra de Assis), a imagem do cinema em decomposição do filme de Kleber serviria de ilustração para alguns trechos das entrevistas concedidas recentemente pelo diretor.  Kleber Mendonça busca estabelecer que os filmes dele e de outros colegas de geração representam uma ruptura em relação aos dos cineastas pernambucanos da geração imediatamente anterior à sua. Ora, esse conflito é artificial, no conteúdo e na forma. Tentativa descabida de repetição de outros combates polêmicos da cinematografia brasileira, bem mais autênticos quanto à ruptura estética: Cinema Novo versus Chanchada; Udigrudi versus Cinema Novo. Ou na Terra de altos coqueiros do velho kodakiano super-8: anarquistas versus conservadores. Ao mesmo tempo, não se deve negar, essa busca de confronto é interessante, instigante. Deve ser até acirrada, a partir de agora. ("Que a vanguarda do não avance e vença" - Mário Faustino).  Kleber Mendonça, é claro, não tem por que celebrar os precoces cabelos brancos da turma dos filmes sobre "cangaço e sertão". Mas,  reconheçamos, ainda é muito cedo para rezar missa de sétimo dia para os diretores pernambucanos Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Marcelo Gomes, Claudio de Assis, e mais outros.  Mesmo porque todos estão em plena atividade,  com filmes interessantes, ousados, urbanos e até insulares, coproduzidos por parceiros internacionais.  Uma fauna reluz na tela. Sacrossanta biodiversidade:  lúmpens, poetas anarquistas, maconheiros imersos em tonéis, psiquiatras piradas, aposentados que ouvem frevo todos os dias,  artistas de circo marginalizados, japonesas tesudas e padre que quer perder o cabaço.  São propostas estéticas e histórias inovadoras, bem originais. Pasme: até melodrama tem. Portanto, todo poder à polêmica. Mas, diria um dos oráculos de Delfos, se oriente, rapaz.    
"O som ao redor", como o próprio título anuncia, tem e trata o som como personagem principal. A trilha incidental (trabalho excepcional de DJ Dolores e do próprio Kleber) reproduz e incita toda a violência latente do filme. Mas o que existe de mais moderno é a utilização da trilha, em algumas cenas, como flashbacks e flash-forwards (enquanto exclusivamente  som).  Contribuição inestimável (e ainda não mensurada) para a linguagem cinematográfica.  Aí, sim, o cineasta assume a vanguarda, que avança e vence. Alguém poderia avisar a Godard?
O mesmo não se pode dizer da utilização da canção "Charles, Anjo 45", de Jorge Ben, na voz aveludada de Caetano Veloso. Bela porém inútil, deslocada, descontextualizada, letra que exalta bandido de morro, e não milícia de rua de classe média, justiceiros urbanos.  Por falar em Caetano Veloso, anos atrás, numa lamentação à Policarpo Quaresma, ele disse que o Brasil era um país de vocações desperdiçadas. Frase que poderia ser aplicada a ele mesmo, sem dificuldades.  Além de excelente cantor e compositor, Caetano Veloso seria, facilmente, um surfista, desses que são campeões de grandes vogas. Noventa anos depois e centenas de prêmios(o primeiro filme realizado no Recife é de 1923), ele descobre o cinema pernambucano. É só ler o texto surfista(piscando o olho político para o governador Eduardo Campos) sobre o filme de Kleber Mendonça no jornal "O Globo". Enfim, mais uma vocação lamentavelmente desperdiçada.  Mas deixemos na praia o oráculo-farol de Delfos. E prestemos atenção na onda. Como diz Raul Seixas no documentário(2012) de Walter Carvalho: "a onda tá certa".  E a trilha? Por que não ouvir agora a voz de outra vocação desperdiçada, a do senador Suplicy, cover de Bob Dylan: "a resposta, meu amigo, está soprando ao vento"?.
A direção de atores é segura, homogênea, e todos dão conta do difícil recado de transmitir a sensação de insegurança, inclusive os coadjuvantes não-profissionais. O ator paraibano W. Solha interpreta, com maestria,  o "coronel" rurbano (para usar neologismo criado por Gilberto Freyre). Solha, que já brilha em "Era uma vez eu, Verônica" (de Marcelo Gomes), é uma grande e oportuna aquisição do cinema pernambucano.  O  filme de Kleber Mendonça é, de fato, longo, duas horas e onze minutos. Isso é outro diferencial. Estabelece outro padrão de metragem para o cinema pernambucano. Rompe com a mania boba dos nossos diretores de longa de restringir os filmes a apenas 90 minutos (quase dez de créditos e agradecimentos). A rigor, quase curtas espichados. Vamos lá, "sertanejos", derretam os relógios. Ou, para citar o poeta Ângelo Monteiro: desmanchem "os ponteiros do relógio infectados de tempo".