Starlets, divas taxidermizadas,
improvisadas dos BBBs, damas de conforto dos diretores do Projac podem borrar o
rímel, à vontade: a melhor atriz do cinema brasileiro, hoje, é Hermila Guedes. Façam
um teste rápido. Escolham, aleatoriamente, qualquer cena de "Era uma vez
eu, Verônica",do competente cineasta Marcelo Gomes, e lá estará, com
densidade rara, espantosamente rara, Hermila, a transmigrar-se (a alma também a
arrastar o corpo, por areia e lençol) para a personagem-psiquiatra.
"Mestre, qual é o sexo das almas?" (Mario Faustino). Entre o tormento
e o prazer (como se alguma personagem de Bergman migrasse do frio para uma
temporada nos trópicos). Os puristas de cinemateca talvez se irritem com a comparação,
mas Hermila é a nossa Ana Magnani, despojada da teatralização original da atriz
italiana. A rapeize das atuais sessões de arte talvez goste de saber que
Hermila tem uma ou outra semelhante a atuar no
novo cinema romeno. Mas Hermila
tem qualidades intransferíveis. É também uma atriz de silêncios. E aqui o
mérito é só dela. Um desafio para o espectador, que, então, construa, no
silêncio, a sua própria narrativa, interagindo ou não com a personagem.
"Era uma vez eu,
Verônica" revela a maturidade do cinema produzido em Pernambuco. A
maturidade da ousadia, marca indelével e histórica da cinematografia pernambucana. Qual seria a
sinopse imperfeita? Jovem médica, psiquiatra recém-formada, trabalha no SUS e
se depara com todas as doenças mentais originárias do nosso acalentado abismo
social; tem um desvelo obsessivo pelo
pai aposentado e doente (Electra dissimulada?); e busca no sexo, a dois ou surubático, a descompressão
do sufoco cotidiano (linha reichiana?). Ela própria, e a angústia nunca vem
sozinha, também é paciente, de si mesma. Se escuta em off o fluxo da (in)consciência
agônica de Verônica. Herança de um velho recurso literário (orquídeas
migratórias dos jardins psicanalíticos vienenses do início do século XX), a incomodar os fâmulos adoradores do claustro
audiovisual, desertores há muito do "livro grande". Em parte, eles
estão certos. Muralha de convicção que poderia ser desarticulada se o diretor,
em sequências evolutivas ao off-agônico, desvelasse o solilóquio, o fluxo agônico
também em on, viva voz, na própria boca de Verônica. Tal e qual Dom Quixote,
que fala sozinho em vários momentos de sua coleante aventura. Falar (e rir) sozinho
é um luxo para poucos. São borboletas defeituosas transmudadas, com ranhuras
genéticas. Lamentavelmente, ali, a infantaria dos pascácios avançou e venceu um
round. Perdemos, playboy.
Verônica vive no tempo de hoje,
na cidade em inesgotável decomposição urbana (a pátina dos cartões antipostais
do Recife é sempre chocante, não obstante está se tornando um clichê do cinema
pernambucano), imersa nos corredores congestionados e sofridos da saúde
pública. Mas, curiosamente, a personagem talvez tenha mais proximidade
psicológica e comportamental com médicos de outra geração, mais precisamente a
dos anos 70, e não com a atual de doutores (mercantilizados desde os cursinhos
preparatórios). Nos anos de governo militar, jovens médicos, como Verônica, e, ao contrário desta,
politizados pela cartilha da Esquerda, e, como ela, buscando o contraponto à
repressão na liberação do corpo (agora, sim, cabeça feita pela função do
orgasmo de Wilhelm Reich, entre outros) e na contracultura, poderiam ter servido
de arquétipos mais realistas para a construção da persona de Verônica.
Abstraída a ausência de contestação política, inexistente em Verônica, a
angústia tem a mesma difusa matriz. Também é provável que Verônica, classe
média baixa (tipo C?), venha a ser modelo para outra futura geração de médicos.
Aí teremos que esperar a fornada de médicos que logo será formada pelas cotas raciais
das universidades públicas. Não há descompasso em situar Verônica antes ou
depois dos tempos atuais. Mas é quase improvável que ela hoje seja muitas, como
foram nos opressivos 70, ou como poderá vir a ser lá adiante. Atemporal mas tão
presente.
O SUS e os seus ambulatórios
decadentes fazem parte da coleção nacional de campos de concentração. Existem
outros, como os depósitos de adolescentes infratores (especializados em tortura
oficial e decapitação televisionada), os presídios e cadeias infectadas, as estalagens vergonhosas do trabalho escravo
espalhado pelo Brasil e subvencionado com verbas públicas para fazendas, usinas
e empresas. Ou os guetos dos viciados-zumbis do crack. Tudo sob o manto
enrolation da apregoada mistificação da excelência gestão administrativa.
Acostumada ao horror, a sociedade brasileira aceita hoje esses campos de
concentração com um disfarçado sorriso de deboche autossatisfatório ou com
muxoxos de indignação passiva. As cenas SUS de "Era uma vez eu,
Verônica" são, quase sempre, de um realismo impressionante. O relato das
doenças (psicossociais, o velho Reich comparece mais uma vez) obriga o
espectador a entrar à força no ambulatório. A dor de cabeça, a depressão e o
catatonia fazem parte da longa insônia da saúde pública no Brasil. Há cenas
fortes, constrangedoras, como a cusparada do paciente ensandecido no rosto da
médica. O take preferido do plantão
médico. Mais uma vez, Hermila mostra a garra que só grandes atrizes ostentam. Assimetricamente,
e bem mais na frente, em dois belos planos, catárticos, a água lava o rosto da
atriz. No primeiro, o chuveiro escorre a dor. No segundo, a explosão da água do
mar rebate no rosto, um intenso prazer líquido.
"Era uma vez eu,
Verônica" é um filme de um diretor talentoso e ousado. É sobretudo um
filme de atriz, expressiva, corajosa, única. Uma atriz de silêncios. Mas também
de devastadoras emoções. A cena em que ela recebe o diagnóstico da doença do
pai e exprime, quadro a quadro, toda a dor que sente já é antológica. O diretor
e roteirista Marcelo Gomes impôs à personagem a palavra "desculpe" em
plena sequência, quando a atriz revela todo o seu talento (ela, no caso, se dirige ao colega médico, oculto na cena),
absolutamente desnecessária. Sentimentos profundos prescindem de bons modos. Mesmo a imprudência descabida do diretor não
prejudica a sequência em que Hermila mostra a excepcional atriz que é. Os
professores de cinema e de teatro deveriam exibi-la pelo menos uma vez por mês
para os seus alunos.
As cenas de sexualidade, a dois ou de orgia (a
psiquiatra gosta de praticar esse esporte, também conhecido como coletivo-apronto), representam mais do
que meramente um componente dramatúrgico do filme. São também uma narrativa
estética, de pulsão, compulsão e composição próprias. O diretor Marcelo Gomes
escolheu a partilha cubista de Picasso (sem trocadilho, por favor). Corpos, ou
peças de corpos, se entrelaçam, muitas vezes sem que o gênero seja facilmente
definido, sob a luz impressionista do excelente diretor de fotografia Mauro Pinheiro
(artesão de belos planos). O cubismo, liberto das formas rígidas, eleva a orgia
a maleáveis prazeres despedaçados, bem ao gosto psicológico de Verônica. Mas,
aqui, buscando, na fragmentação cubista, recortes eróticos, se acentuam as
tetas totêmicas de Hermila Guedes e também os seus pelos pubianos (contrários à
máquina zero, mas delineados no modelito "meia cabeleireira
rebaixada"). O diretor Marcelo Gomes deve conhecer a sentença axiomática
do escritor Henry Miller: "são os pentelhos que tornam a buceta
misteriosa". E, também aqui,
Hermila Guedes, desprovida do medo de ser Verônica, não foge à sua inesquecível
interpretação. É a mulher e a sua hora.

