sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Truffaut, a rebeldia de uma geração

Não é possível falar de cinema sem tocar na França. Bem como, não é possível falar da Nouvelle Vague sem mencionar o gênio cinematográfico François Truffaut. Pelo menos oficialmente, desde o “advento” do cinema em 1895 pelos irmãos lumiére (apesar das controvérsias) nos vaudevilles e grandes cafés.
Da sétima arte nas telas os franceses conheceram sua supremacia. Com a chegada do som a partir de 1927, o cinema parecia ter decretado o fim das produções silenciosas e levando a bancarrota não só a França, mas inúmeras produtoras espalhadas pelo mundo.
Entretanto, com o surgimento da Nouvelle Vague, do françês “a nova onda”, uma nova geração parecia ter oxigenado o orgulho perdido, agora ocupado por Hollywood. São eles: Chabrol, Godard, Rivette, entre outros, mas, principalmente Truffaut (foco desta pesquisa) um dos principais líderes daquele movimento.
Apelidados de “turcos”, este jovem cineasta acrescentou, não só ao movimento com a inserção de seus filmes (de baixo orçamento) como também a sua crítica acirrada ao luxuoso cinema comercial norte-americano. Fator este que também atraiu uma legião de jovens cineastas franceses.
No entanto, seu sucesso e fama internacionais contradizem os seus primeiros anos. François Truffaut nasceu em 6 de fevereiro de 1932, em Paris. Garoto pobre, Truffaut foi criado pelos avós maternos, além de nunca ter conhecido seu pai biológico era rejeitado pela mãe. Apesar da rigidez do avô, foi sua avó quem despertou nele o interesse pela sétima arte, e nunca mais parou.
Com o falecimento de ambos, o garoto voltou para tutela da mãe e do padrasto (Roland Truffaut) a quem o registrou com o sobrenome que lhe deu fama. Naquele período, o cineasta viveu o pior período de sua vida, era mau aluno e vivia como um delinqüente, sempre praticando pequenos furtos. Na escola matava as aulas pra ir ao cinema. Foi com todo este cenário que, anos depois inspirou Truffaut a produzir uma de suas obras mais famosas no cinema: Os incompreendidos, em 1959. Depois veio muitos outros, os quais mais adiante irão ser citados.

Sobrevoando a Nouvelle Vague
A Nouvelle Vague, a exemplo dos outros movimentos cinematográficos como o neorrealismo italiano, não tem uma data definida de nascimento. Sabe-se que seu embrião surgiu no pós-guerra, depois de 1945. Sob o comando do cineclubista Henri Langlois, e suas projeções de filmes clássicos ou mesmo raros semeou a consciência crítica de milhares de jovens. Por isso foi considerado o primeiro movimento cinematográfico produzido com base em um interesse pela memória do cinema.
E não parou por ai, a característica do baixo orçamento dos filmes, além da legitimidade na produção dos novos cineastas também é considerada sua influência indireta. Homem de iniciativas arrojadas, Langlois conquistou a chefia da cinemateca francesa. Mas, algum tempo depois foi deposto pelo governo De Gaulle e pelo ministério de André Malraux, sob a acusação de centralizador, em maio de 1968.
Um crítico de cinema já influente, François Truffaut o defendeu ferozmente. A tamanha repercussão do episódio arregimentou outras personalidades da Nouvelle Vague e amplos setores da sociedade francesa que protestaram ao seu favor. Como resultado, Langlois foi reconduzido para a cinemateca, em contrapartida, logo depois o movimento se dispersou e chegou ao fim, mediante a iniciativa de seus realizadores em tocar projetos sem a mesma unidade fílmica antes predominante.
Principais filmes
Antes de falar da filmografia de Truffaut, é válido lembrar quais fatores marcaram a sua produção, bem como o seu sucesso ao redor do mundo. Primeiro, às locações, em geral situadas em Paris era comum filmar em cafés, nightclubs, ruas, vielas e, sobretudo, seus freqüentadores. Como resultado, surge um material bem variado, com maior número de planos e lugares.
Evidentemente, estas características refletiram na questão como a intromissão sem maiores desculpas, cartelas, arquivos de filmes, programas de televisão, atores mirins, tonalidade das cenas, a busca pelas ruas; ao contrário do cinema clássico, cuja tendência constante da produção fílmica era em estúdios e milimetricamente montados.
No tocante a narrativa, a utilização da voz over (como em Os Incompreendidos, e 1959) e do flashback (Jules e Jim, de Truffaut, 1962). Outros cineastas como: Alain Renais, também contribuiu para o movimento com a quebra da estabilidade da narração e relações de tempo e explicita a figura do narrador. Aproveitando estas experiências Truffaut realiza A noite Americana, de 1973.
No ponto de vista financeiro, seus filmes eram de baixo orçamento, com outrora foi dito. Contudo, os financiadores, como por exemplo: Pierre Braunberger e Georges de Beaureagard, é claro, eram também simpatizantes do movimento françês de cinema (Nouvelle Vague).
Antes de ficar famoso por seus longas, Truffaut se aventurou em curtas-metragens como A visita (1954) e Os Pivetes (1957), o qual inclusive lhe rendeu o Prêmio de Melhor Diretor no Festival Du Film Mundial, em Bruxelas. Mas com Os Incompreendidos/Os 400 golpes (1959) que lhe rendeu o Prêmio de Melhor diretor do Festival de Cannes, além de uma indicação ao Oscar por Melhor Roteiro Original.
Como nem tudo são flores, na seqüencia ele também conheceu alguns fracassos, como o título Atirem no pianista (1960). Bastante bombardeado pela crítica. Em contrapartida, se recupera com Julis et Jim – uma mulher para dois (1962), adaptação homônima do livro de Henri-Pierre Roché. Em seguida, com Fahrenheit 451 (1966) consegue algumas indicações ao Bafta e no Festival de Veneza.
Mas, apenas em A Noite Americana (1973), em mais uma adaptação, Truffaut conquista o Oscar de Melhor filme estrangeiro, além de três Baftas. Trata-se de uma de suas obras mais famosas. No conteúdo mistura realidade e ficção, com uma socióloga que visita uma presidiária.
Sua maior premiação chega com O Último Metrô (1980), que recebeu 10 estatuetas do Prêmio César, e uma indicação ao Oscar. Logo após produziu A mulher do Lado (1981) e, Finalmente, Domingo! (1983). Estes, apesar de não conquistarem prêmios receberam algumas indicações. Sua carreira é interrompida com morte em 1984, aos 52 anos, vítima de tumor cerebral causado pelo vício do cigarro.

Um crítico avassalador

Além da direção cinematográfica, Truffaut também foi produtor, roteirista, ator, e um ferrenho crítico de cinema. Sua intimidade com as letras, conseqüência de uma intensa dedicação à leitura e aos filmes garantiram-lhes o status de um grande formador de opiniões. Um exemplo marcante, já citado no começo deste paper, foi o episódio da demissão de Langlois, cuja mobilização popular por ele incitada o levou (Langlóis) a recondução do comando da cinemateca francesa.
Mas para entender Truffaut é indispensável conhecer o seu passado, influências e mestres que o ajudaram na formação de sua personalidade. Sua paixão pelo cinema como foi citado outrora, é um fato trivial. Mas o abandono do colégio aos 14 anos a fim de fundar um cine clube (o Cercle), tornou-se algo incomum para um jovem da sua idade. Porém, com a fundação simultânea do concorrente Travail et Culture, de André Bazim o Cercle não teve vida longa.
Sensibilizado, Bazin se propõe a ajudá-lo e daí surge uma grande amizade entre os dois que durou o resto da vida. Seu contato com ele o influenciou profundamente, e pela diferença de idade, o mestre representou o pai que ele não teve, sobretudo nos momentos mais difíceis.
O exemplo mais forte foi quando Truffaut propôs um acordo com o pai adotivo, Roland Truffaut, que, se este lhe custeasse as despesas da vida cinéfila ele abandonaria seu cine clube de vez.
Todavia, a promessa foi descumprida pelo futuro diretor. Como castigo, pai o internou num reformatório juvenil e passou sua custódia para a polícia. Mas, seu mau comportamento, os psicólogos entram em contato com Bazin, que em troca de sua liberdade garantiu um emprego estável a ele no seu cine clube. Sob liberdade condicional, Truffaut ainda chegou a ser internado num lar religioso em Versailles, mas é expulso novamente por má conduta.
Enquanto jornalista, ele iniciou sua carreira em abril de 1950, ao ser contratado pela revista Elle onde passou a escrever seus primeiros textos. Neste ínterim, ingressou no serviço militar, mas pouco tempo depois tentou escapar, e acabou sendo preso por tentativa de deserção. Novamente Bazin lhe estende a mão, daí o cineasta retorna a escrever como freelancer críticas de cinema.
Mas foi na revista Cashier Du Cinemá o ponto mais alto de sua carreira jornalística. Ingressou em 1953, dois anos depois de sua fundação pelo mestre Bazin em parceria com outros nomes de peso. Polêmico, escreveu mais de 170 artigos, e ainda no primeiro adotou o título “Uma certa tendência do cinema francês”. No decorrer do tempo sagrou-se cada vez mais como um crítico bombástico e ácido, além de fomentador da política dos autores.
Em sua opinião, o grande responsável pelo filme estaria para o diretor, bem como um livro ou uma canção estaria para o escritor ou compositor. O grande representante de sua teoria foi o cineasta inglês Alfred Hitchcock, a quem também entrevistou.
Conclusão
Enfim, falar de François Truffaut é um pouco de descrever uma história de superação. De garoto pobre, rejeitado, jogado em reformatórios a um premiado diretor, numa vida atribulada, com romances igualmente atribulados, é verdade, mas vividos intensamente. É também de falar em um dos pioneiros de um movimento que também revolucionou a história do cinema, a maneira de pensar, de filmar, de idealizar a forma do fazer cinema.
De um avô austero, e uma avó amante da cultura, nasce o seu desejo pelas artes. Formou grandes amigos como André Bazin, cuja morte em 1961 lhe causou um duro golpe, visto o relacionamento fraterno que ambos tinham. Com Jean-Luc-Godard chegou a ser grande amigo e parceiro de trabalho, mas que por um desentendimento rompeu a amizade. Perto da morte de Truffaut, sabe-se que Godard ainda tentou uma reaproximação, mas sem sucesso.
No final da vida, o cineasta chegou a iniciar sua autobiografia. Mas, já enfermo, reclamava de fortes dores de cabeça. Não conseguiu finalizá-la em função de ter sido hospitalizado, faleceu no dia 21 de outubro de 1984. Contudo, suas idéias ainda vivem e com lugar garantido na história do cinema mundial.